É muito difícil imaginar que ainda existam pessoas que têm que caçar para comer. Pessoas sem acesso à internet ou a produtos tecnológicos modernos, que jamais ouviram falar de iPad, Microsoft ou Facebook pela simples razão que nada disso faria a menor diferença em suas vidas. Inverno da Alma trata da vida de pessoas como essas. Ele entra nesse universo e nem por um segundo foge dele para contar sua história.
Ree Dolly (Jennifer Lawrence) sofre duras penas para cuidar de seus dois irmão menores e da mãe doente em uma cabana rural, longe de qualquer cidade grande (ou mesmo média, ao que tudo indica). Ela conta, relutantemente, com os vizinhos para ajudá-la e procura se manter longe do contato com a família, composta principalmente por seu tio Teardrop (John Hawkes), um personagem inicialmente antipático, mas que acaba se mostrando o principal aliado de Ree, e seu pai, que esteve preso por fabricar drogas.
O filme é montado como uma grande jornada, empreendida por Ree, para salvar a casa onde vive com a família e que acaba se tornando uma jornada de descobrimento e (por que não?) de aceitação do ambiente que a cerca. Ela tem que achar o pai, vivo ou morto, para obrigá-lo a comparecer ou justificar seu não comparecimento a uma audiência penal. A pena para o não comparecimento é a perda da casa como pagamento de suas dívidas.
Um dos principais trunfos da produção é a seleção do elenco. Este é um daqueles filmes que certamente elevarão uma atriz praticamente desconhecida à categoria de estrela. Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar e Globo de Ouro, faz o papel de uma jovem mulher forte e objetiva, que parece sempre carregar o fardo mais pesado sem nunca perguntar por que. Sua atuação é contida e, ao mesmo tempo, bastante comovente, um verdadeiro feito para uma atriz tão jovem. No entanto, os personagens que vivem ao seu redor foram escolhidos quase à perfeição, tornando o filme bastante verossímil em toda a sua composição.
Veja, por exemplo, Merab, a esposa de um temido "caubói" da região. Ela é assustadora. Mas não é monstruosa. É fácil perceber as razões pelas quais age de forma violenta e, muitas vezes, maldosa. Ao mesmo tempo, ela possui um lado humano estranhamente embrutecido, que a transforma em uma personagem fascinante, apesar de suas rápidas aparições. Talvez a principal conquista do filme seja que todas as pessoas que habitam seu universo não se mostrem boas ou más, mas apenas produtos de seu próprio ambiente. Elas não julgam e não são julgadas, simplesmente existem daquela forma.
O filme opta por não mostrar cenas grotescas ou sangrentas, que têm sido uma constante no cinema moderno (nada contra). Ele deixa por conta do espectador imaginar muitas das coisas que estão acontecendo e sua história ganha força com isso. A busca de certa forma psicológica da garota por seu pai acaba se tornando bem sucedida de uma forma diferente. Ela encontra em seu tio, se não um pai, pelo menos um homem preocupado com seu bem estar, que pode sim servir como uma figura paterna. E com uma visão sem preconceitos quanto ao seu vício em cocaína e sua brutalidade.
No final, a "jornada do herói" de Ree acontece apenas para deixá-la na mesma situação material. Ok, com um pouquinho mais de dinheiro. Mas mostra que o reencontro com o seu lado escondido, formado principalmente pelas pessoas que ela conhece ou com quem se refamiliariza (ó, que palavra bonita), pode ser a principal recompensa de toda a história.
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
sábado, 1 de janeiro de 2011
Secretariat (2010)
Secretariat é um filme incrivelmente verdadeiro e tocante, que consegue mexer com nossa emoção muitas vezes com aquilo que fica implícito, e não com o que é dito. É o meu filme preferido de 2010 e qualquer um que o assista vai entender porque. Não é um ganhador de Oscar, mas e daí? Muitas pessoas vão amá-lo.Ele conta a história de Big Red, o cavalo Secretariat, até hoje considerado o melhor cavalo de corrida de todos os tempos e o animal que está melhor posicionado entres os maiores atletas do século passado. O filme começa com a morte da mãe de Penny Chenery (Diane Lane), que agora tem que tomar conta de seu pai com Alzheimer (sua doença nunca é revelada, mas acredito que seja um palpite bastante válido), de sua fazenda e seus cavalos. É em meio a essa história que ela acaba recebendo o cavalo Big Red, que aparentemente nasceu para correr.
O filme procura traçar um paralelo entre a determinação de Penny e a vitória e força de Secretariat. A mensagem é clara e bastante convencional. Não desista dos seus sonhos, siga sempre em frente, não importa o que aconteça, etc. Não seria um filme da Disney sem isso.
Apesar de ser uma produção bastante convencional, em algum ponto, a importância do cavalo cresce de uma forma inteligente e os outros problemas (dinheiro, distância da família, morte do pai, etc.) se perdem no meio do caminho. O elemento excepcional em meio a tudo isso é Secretariat e todos os que entram em contato com ele começam a se dar conta disso. Seu treinador (John Malkovich) não precisa fazer muita coisa, ele parece ter nascido com o espírito livre e vitorioso.
Obviamente que todos sabemos que ele vencerá no final, mas qualquer um que não acompanhe o esporte com muita frequência (eu, por exemplo) vai se surpreender com a última corrida, de longe a melhor cena do filme. Eu bem que tentei, mas foi impossível segurar as lágrimas. Quando o filme acabou, a primeira coisa que fiz foi procurar essa corrida no YouTube. Aqui, fiquei mais surpreso. As imagens são incrivelmente precisas e até a narração da corrida é idêntica. O recorde da pista se mantém e até hoje nenhum cavalo chegou perto de batê-lo.
Eu não iria tão longe dizendo que este é o melhor filme de 2010 (A Rede Social ainda mantém seu posto), mas, até o momento, é meu favorito (a diferença é grande). Eu amei, o que mais posso dizer?
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
The Kids Are All Right (2010)
Em tempos de discussão sobre os direitos dos homossexuais e de algumas vergonhosas demonstrações de violência e incompreensão, nada poderia ser mais bem vindo do que um filme como este. Um filme que não discute a discriminação e o preconceito e, na verdade, nem leva isso em consideração. The kids are all right (com o distante título Minhas mães e meu pai no Brasil) é uma bela produção, que faz com que situações estranhas pareçam absolutamente naturais e verdadeiras.
O filme conta a história de uma família que, à primeira vista, parece perfeita. Nic (Annete Benning) é o "pai" autoritário, que trabalha para pagar as contas, procura tomar conta de todos e comanda os filhos e a esposa com mãos de ferro. Jules (Julianne Moore) é a esposa insegura, sensível e meio louca. Os filhos são tratados como a representação das duas mães na forma de pensar e agir. Joni (Mia Wasikowska) também é sensível e ligeiramente reprimida e funciona como um espelho de Jules (o nome das duas também é bastante sugestivo). Laser (Josh Hutcherson) é bastante prático e desligado, com uma personalidade próxima da de Nic. Ele não parece incomodado por ser o único homem da família. Na verdade, ele não parece incomodado com nada.
Tudo está bem, até que Laser decide procurar seu pai biológico (o mesmo também de Joni). Seu primeiro encontro é tão natural, tão embaraçado e interessante, que eu seguramente definiria como a melhor cena do filme. Paul (Mark Ruffalo), o pai bonachão e cheio de si, é simpático e estranhamente atraente para todos, exceto Nic, que sente que ele está roubando sua família (o que acaba sendo parcialmente verdadeiro).
O filme fala, principalmente, sobre conflitos familiares, que são descobertos conforme Paul se envolve cada vez mais em suas vidas. Isso e a capacidade do amor de superar problemas e obstáculos. A unidade familiar é retratada como muito mais importante que qualquer elemento externo. É quase impossível não gostar de Paul, um cara sinceramente simpático e que inocentemente se envolve com cada membro da família. Mas no final, somos obrigados a reconhecer que eles são muito mais importantes para Paul do que Paul para eles. Paul é apenas um divertimento, uma pequena aventura, que todos não hesitam em abandonar.
Com momentos engraçados e dramáticos, este filme pode soar extremamente água com açúcar às vezes, mas de uma forma muito natural. É uma indicação certa para o Oscar e está entre as produções mais encantadoras do ano. Proporciona um entretenimento muito bom e traz uma mensagem positiva, embora não exatamente definida.
Eu, pessoalmente, recomendo que o filme seja assistido sem muitas expectativas em cima de uma história de homossexuais vencendo obstáculos. Se Nic fosse vivido por um homem, a diferença não seria tão grande para o roteiro. É nesse tratamento dado à história pela diretora Lisa Cholodenko (ela também homossexual), na verdade, que reside o poder da produção.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Black Swan (2010)
O balé é uma forma de arte pouco difundida hoje em dia, principalmente no Brasil. Eu não conheço ninguém que já tenha ido assistir a um espetáculo de balé ou que tivesse interesse em ir. O mais novo filme de Darren Aronofsky, Black Swan, mostra o que estamos perdendo. A leveza de movimentos, a rapidez, a beleza plástica da dança. Só que o filme se preocupa muito mais com um outro aspecto pouco conhecido dessa arte. O lado negro do balé e da humanidade, que mostra ser muito mais instigante que qualquer outra coisa.
Nina (Natalie Portman) é uma bailarina que é escolhida pela primeira vez para viver a personagem mais importante em uma releitura do balé O Lago dos Cisnes. O problema é que sua aparente pureza e inocência são excelentes para interpretar o cisne branco, mas pouco ajudam na hora de encarnar o cisne negro do título. Em sua luta para alcançar a perfeição no espetáculo, ela procura se reconciliar com seu lado sombrio e acaba vivendo a história d'O Lago dos Cisnes na própria pele.
Os eventos do filme são fechados e íntimos, assim como os cenários e a protagonista Nina. Há uma cena em que ela entra pela primeira vez em contato com alguém que não tem nada a ver com balé, um rapaz que conhece na balada. Quando ele declara não gostar de balé e não conhecer O Lago dos Cisnes, Nina e sua companheira ficam indignadas. É compreensível. Isso é pura e simplesmente a vida delas.
Eu segui os distúrbios e problemas de Nina com bastante interesse e até acreditei neles até mais ou menos a metade do filme, quando a produção revela que aquilo que estamos vendo não é necessariamente a realidade, e sim a verdade da protagonista. A isso se seguem belas e fortes cenas de paranoica fantasia, que explodem em um clímax onde Nina alcança a perfeição como o cisne negro (mas a que preço!).
O universo do filme é estritamente feminino. As figuras masculinas (notadamente o instrutor de balé, vivido por Vincent Cassel) são invasoras, eróticas e atraentes, para compensar a palidez e o abatimento de Nina. Uma outra bailarina, Lily (Mila Kunis), também exerce um estranho fascínio sobre ela, o fascínio do proibido, do absurdo.
Nina é sexualmente reprimida não só por sua mãe rigorosa e superprotetora, mas principalmente por si mesma. Portman teve que aprender muitos passos de balé para este papel, mas sua principal contribuição é a profundidade emocional que dá para sua personagem dentro e fora das cenas de dança. O destaque vai para uma cena de masturbação em seu quarto, em que ela se revolve na cama, gemendo e liberando seus instintos sexuais aprisionados não se sabe há quanto tempo. Ela faz isso porque seu instrutor mandou que fizesse, por sua incontrolável submissão e, ao mesmo tempo, pelo seu desejo de ser perfeita.
Por um momento, eu achei que não saber quais os problemas sofridos por Nina seria um empecilho para o filme, mas o final demonstrou que eu estava errado. Apesar da falta de elementos explicativos em algumas partes da narrativa, a produção exala uma incrível atmosfera de completude e deslumbramento.
Este não é um grande filme. É um filme muito bom. A diferença é pequena e reside em ínfimos detalhes. Eu não consigo imaginar, por exemplo, que ele será lembrado daqui a alguns anos. Assisti-lo é uma experiência diferente e às vezes chocante. Mas faltam elementos que fazem d'A Rede Social, por exemplo, um grande filme. É difícil explicar, mas, quando você assiste as duas produções, se torna fácil entender. Black Swan está muito mais próximo de uma obra de arte que qualquer outro filme lançado este ano, mas, ainda assim, não é uma obra perfeita em si mesma.
Nina (Natalie Portman) é uma bailarina que é escolhida pela primeira vez para viver a personagem mais importante em uma releitura do balé O Lago dos Cisnes. O problema é que sua aparente pureza e inocência são excelentes para interpretar o cisne branco, mas pouco ajudam na hora de encarnar o cisne negro do título. Em sua luta para alcançar a perfeição no espetáculo, ela procura se reconciliar com seu lado sombrio e acaba vivendo a história d'O Lago dos Cisnes na própria pele.
Os eventos do filme são fechados e íntimos, assim como os cenários e a protagonista Nina. Há uma cena em que ela entra pela primeira vez em contato com alguém que não tem nada a ver com balé, um rapaz que conhece na balada. Quando ele declara não gostar de balé e não conhecer O Lago dos Cisnes, Nina e sua companheira ficam indignadas. É compreensível. Isso é pura e simplesmente a vida delas.
Eu segui os distúrbios e problemas de Nina com bastante interesse e até acreditei neles até mais ou menos a metade do filme, quando a produção revela que aquilo que estamos vendo não é necessariamente a realidade, e sim a verdade da protagonista. A isso se seguem belas e fortes cenas de paranoica fantasia, que explodem em um clímax onde Nina alcança a perfeição como o cisne negro (mas a que preço!).
O universo do filme é estritamente feminino. As figuras masculinas (notadamente o instrutor de balé, vivido por Vincent Cassel) são invasoras, eróticas e atraentes, para compensar a palidez e o abatimento de Nina. Uma outra bailarina, Lily (Mila Kunis), também exerce um estranho fascínio sobre ela, o fascínio do proibido, do absurdo.
Nina é sexualmente reprimida não só por sua mãe rigorosa e superprotetora, mas principalmente por si mesma. Portman teve que aprender muitos passos de balé para este papel, mas sua principal contribuição é a profundidade emocional que dá para sua personagem dentro e fora das cenas de dança. O destaque vai para uma cena de masturbação em seu quarto, em que ela se revolve na cama, gemendo e liberando seus instintos sexuais aprisionados não se sabe há quanto tempo. Ela faz isso porque seu instrutor mandou que fizesse, por sua incontrolável submissão e, ao mesmo tempo, pelo seu desejo de ser perfeita.
Por um momento, eu achei que não saber quais os problemas sofridos por Nina seria um empecilho para o filme, mas o final demonstrou que eu estava errado. Apesar da falta de elementos explicativos em algumas partes da narrativa, a produção exala uma incrível atmosfera de completude e deslumbramento.
Este não é um grande filme. É um filme muito bom. A diferença é pequena e reside em ínfimos detalhes. Eu não consigo imaginar, por exemplo, que ele será lembrado daqui a alguns anos. Assisti-lo é uma experiência diferente e às vezes chocante. Mas faltam elementos que fazem d'A Rede Social, por exemplo, um grande filme. É difícil explicar, mas, quando você assiste as duas produções, se torna fácil entender. Black Swan está muito mais próximo de uma obra de arte que qualquer outro filme lançado este ano, mas, ainda assim, não é uma obra perfeita em si mesma.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
A Origem (2010)
O que dizer de A Origem? Um dos filmes mais controversos do ano, a produção ganhou status de altamente complexa e labiríntica. Na verdade, tem um pouco dos dois, embora sua complexidade seja discutível, já que o diretor Christopher Nolan consegue explicar a maioria dos acontecimentos de forma satisfatória. O problema, portanto, não está no esquema muito bem elaborado que circula em torno da invasão de sonhos, e sim na dificuldade completamente proposital imposta por eventos que acontecem fora da própria lógica do filme. Certo, até esta crítica está ficando um tanto complicada, por isso vou tentar explicar de forma simples.
Nas primeiras cenas, o filme mostra toda a ação, mas não explica exatamente o que está acontecendo, deixando que a descoberta, pelo menos para nós, aconteça depois. Esse é um dos motivos pelos quais o filme deve ser visto mais de uma vez (só estou me arriscando a escrever esta crítica depois da segunda). Depois, conforme a equipe de Cobb (Leonardo DiCaprio, em uma interpretação muito próxima da que teve em A Ilha do Medo) monta uma estratégia para invadir a mente de um multimilionário, começamos a ter contato com as regras do jogo. Aqui, apesar das óbvias dificuldades da explicação, passamos a ter uma boa ideia de como os invasores de sonhos trabalham. Só que, desta vez, ao invés de roubar projetos e ideias guardados dentro da mente da vítima, a equipe tem que plantar a resolução de abrir mão de um riquíssimo império empresarial. E isso é mais difícil porque: 1) As ideias podem florescer de diversas formas diferentes, 2) A pessoa não pode saber que o pensamento não partiu dela mesma, 3) A ideia fundamental deve ser inserida em um nível profundo dos sonhos, para que fique bem enraizada. Essas dificuldades são contornadas até que facilmente pela equipe, que parece uma espécie de Dream Team (neste caso, literalmente a equipe dos sonhos).
Nolan dá conta da ação através do mecanismo de defesa de Robert Fischer (Cillian Murphy, a vítima da invasão), para o qual seu cérebro foi treinado. Basicamente, um bando de oficiais que atiram muito mal e só aparecem para justificar as cenas de ação e aumentar a sensação de fatalidade de toda a missão.
Só assistindo pela segunda vez percebi o que me incomodou realmente no filme. Apesar da trama parecer bem amarrada, muitas coisas permanecem inexplicadas e, o que é pior, algumas vão contra as explicações dadas no começo. Na realidade, o próprio final dúbio depende dessas controvérsias. A produção provavelmente foi feita já antevendo as dicussões acerca disso tudo.
O que me incomodou é que o filme parte de uma explicação extremamente racionalizada para o funcionamento dos sonhos (como na maioria dos filmes de Nolan, na verdade) e, no final, parece depender muito de abstrações que não existiam nem hipoteticamente. O grande problema com a cena final é que qualquer das duas explicações que o filme parece apresentar (ou ele voltou à realidade ou continua preso em um eterno sonho-final feliz) são igualmente inverossímeis. Ele não pode ter realmente voltado ao mundo real porque, primeiro, eles não conseguiriam acordar quando quisessem, pois isso depende de um forte narcótico, que dura por algumas horas. E outra, Saito (Ken Watanabe, o empresário que os contratou para o serviço) só conseguiria voltar ao mundo real em um estado de total alienação, pois passara o tempo equivalente a muitos e muitos anos no limbo (um tempo quase infinito, como havia sido citado). E quem conseguiria explicar por que Cobb ainda está jovem enquanto Saito está velho e caquético? O empresário só morreu depois que Cobb foi para o limbo.
A teoria de que ele continuava sonhando também tem suas limitações. O limbo é a camada mais profunda do sonho (aqui, claro, utilizando-se da lógica do filme) e Cobb demorou anos para construir todo aquele local imaginário. Como, então, ele teria entrado em um outro sonho?
Creio que a única explicação plausível é que ele tenha imaginado tudo a partir do momento em que é encontrado na praia por um dos seguranças de Saito. Por acaso alguém sabe como ele chegou ali? Acredito que esse fosse um indício de que tudo o que aconteceria dali pra frente seria um sonho. Portanto, a conversa com Saito, seu retorno, o reencontro com os filhos seriam todos uma forma de sua mente lhe providenciar um final feliz. Aquilo se tornou seu limbo, assim como havia sido um paraíso por um tempo para ele e Mal (Marion Cotillard, sua esposa).
Por si só, um filme que nos faz pensar e tecer teorias sobre seu conteúdo já deve ser considerado como um bom filme. A Origem é um ótimo filme porque alia isso a boas interpretações do elenco e a imagens e efeitos visuais fascinantes. O problema é que talvez Nolan tenha se perdido em meio a toda a lógica maluca da produção. Ou não. Talvez só ele tenha o mapa desse labirinto. De qualquer forma, acho que é algo que nunca descobriremos.
Nas primeiras cenas, o filme mostra toda a ação, mas não explica exatamente o que está acontecendo, deixando que a descoberta, pelo menos para nós, aconteça depois. Esse é um dos motivos pelos quais o filme deve ser visto mais de uma vez (só estou me arriscando a escrever esta crítica depois da segunda). Depois, conforme a equipe de Cobb (Leonardo DiCaprio, em uma interpretação muito próxima da que teve em A Ilha do Medo) monta uma estratégia para invadir a mente de um multimilionário, começamos a ter contato com as regras do jogo. Aqui, apesar das óbvias dificuldades da explicação, passamos a ter uma boa ideia de como os invasores de sonhos trabalham. Só que, desta vez, ao invés de roubar projetos e ideias guardados dentro da mente da vítima, a equipe tem que plantar a resolução de abrir mão de um riquíssimo império empresarial. E isso é mais difícil porque: 1) As ideias podem florescer de diversas formas diferentes, 2) A pessoa não pode saber que o pensamento não partiu dela mesma, 3) A ideia fundamental deve ser inserida em um nível profundo dos sonhos, para que fique bem enraizada. Essas dificuldades são contornadas até que facilmente pela equipe, que parece uma espécie de Dream Team (neste caso, literalmente a equipe dos sonhos).
Nolan dá conta da ação através do mecanismo de defesa de Robert Fischer (Cillian Murphy, a vítima da invasão), para o qual seu cérebro foi treinado. Basicamente, um bando de oficiais que atiram muito mal e só aparecem para justificar as cenas de ação e aumentar a sensação de fatalidade de toda a missão.
Só assistindo pela segunda vez percebi o que me incomodou realmente no filme. Apesar da trama parecer bem amarrada, muitas coisas permanecem inexplicadas e, o que é pior, algumas vão contra as explicações dadas no começo. Na realidade, o próprio final dúbio depende dessas controvérsias. A produção provavelmente foi feita já antevendo as dicussões acerca disso tudo.
O que me incomodou é que o filme parte de uma explicação extremamente racionalizada para o funcionamento dos sonhos (como na maioria dos filmes de Nolan, na verdade) e, no final, parece depender muito de abstrações que não existiam nem hipoteticamente. O grande problema com a cena final é que qualquer das duas explicações que o filme parece apresentar (ou ele voltou à realidade ou continua preso em um eterno sonho-final feliz) são igualmente inverossímeis. Ele não pode ter realmente voltado ao mundo real porque, primeiro, eles não conseguiriam acordar quando quisessem, pois isso depende de um forte narcótico, que dura por algumas horas. E outra, Saito (Ken Watanabe, o empresário que os contratou para o serviço) só conseguiria voltar ao mundo real em um estado de total alienação, pois passara o tempo equivalente a muitos e muitos anos no limbo (um tempo quase infinito, como havia sido citado). E quem conseguiria explicar por que Cobb ainda está jovem enquanto Saito está velho e caquético? O empresário só morreu depois que Cobb foi para o limbo.
A teoria de que ele continuava sonhando também tem suas limitações. O limbo é a camada mais profunda do sonho (aqui, claro, utilizando-se da lógica do filme) e Cobb demorou anos para construir todo aquele local imaginário. Como, então, ele teria entrado em um outro sonho?
Creio que a única explicação plausível é que ele tenha imaginado tudo a partir do momento em que é encontrado na praia por um dos seguranças de Saito. Por acaso alguém sabe como ele chegou ali? Acredito que esse fosse um indício de que tudo o que aconteceria dali pra frente seria um sonho. Portanto, a conversa com Saito, seu retorno, o reencontro com os filhos seriam todos uma forma de sua mente lhe providenciar um final feliz. Aquilo se tornou seu limbo, assim como havia sido um paraíso por um tempo para ele e Mal (Marion Cotillard, sua esposa).
Por si só, um filme que nos faz pensar e tecer teorias sobre seu conteúdo já deve ser considerado como um bom filme. A Origem é um ótimo filme porque alia isso a boas interpretações do elenco e a imagens e efeitos visuais fascinantes. O problema é que talvez Nolan tenha se perdido em meio a toda a lógica maluca da produção. Ou não. Talvez só ele tenha o mapa desse labirinto. De qualquer forma, acho que é algo que nunca descobriremos.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
A Rede Social (2010)
Também é bom lembrar que o filme não lida com o Zuckerberg da vida real. Ele trabalha com um livro sobre o criador do Facebook e, por isso, é praticamente uma adaptação de uma adaptação. O próprio Mark revelou algumas discrepâncias fundamentais para o roteiro, como o fato de ele ter tido uma namorada fixa durante todo o período de construção do site.
O filme é contado de forma rápida e também muitas vezes incompreensível, mas, assim como na primeira cena, nós entendemos aquilo que precisamos entender. Poderia se dizer que é quase tão dinâmico e intuitivo quanto a própria internet. Se logo no começo temos a explicação de praticamente tudo o que está para acontecer, no fim, temos uma síntese de todo o filme em apenas duas frases. Não, Mark não é um babaca. Nós podemos ver seu sofrimento com o isolamento e a incompreensão em relação aos outros. Mas Mark faz de ser um babaca seu principal objetivo na vida. E, de forma ainda mais interessante, ele parece querer provar que é um cara legal sendo cada vez mais babaca.
Ele não quer dinheiro, mas espera conseguir respeito por ser famoso e por ter criado algo em que ninguém jamais havia pensado antes. Apesar das inconsistências de seu caráter, é um personagem com quem é fácil se identificar e seus conflitos internos são extremamente humanos e palpáveis.
A narrativa se divide entre reuniões dos processos movidos contra Mark (por colegas de Harvard que, direta ou indiretamente, o ajudaram a ter a ideia do Facebook e a realizá-la) e suas lembranças dos acontecimentos que o levaram até ali. Apesar de ser um recurso bastante utilizado no cinema, dificilmente acontece com este grau de completude, em que o passado acrescenta tanto para o presente quanto o presente adiciona ao passado.
De forma estranha, a cena mais interessante e autoral do filme não tem nada a ver com a internet (pelo menos não diretamente). Fincher conseguiu transformar uma corrida de remos, algo essencialmente maçante, em um esporte dinâmico e veloz, através de cortes rápidos de cena e (pasmem) música clássica. Nesse momento, mais do que em todo o restante do filme, Fincher demonstra a sua habilidade como diretor.
Seu estilo já havia sido testado em produções anteriores notórias, entre elas Clube da Luta e Se7en. Porém, somente em A Rede Social ele consegue incorporar totalmente sua direção rápida e abrupta com um filme de grande qualidade e, por que não dizer, também altamente dramático.
Conhecido por finais surpreendentes, Fincher aqui consegue surpreender o telespectador com algo que ele muito possivelmente já sabia. Nada de reviravoltas como em Clube da Luta. Todo o filme, assim como a ascensão de Mark, é construído com base em uma ideia principal, que se desenrola pouco a pouco em seu decorrer: Qual a motivação para ele fazer tudo aquilo. Não é por dinheiro, ele também não quer fazer amigos, não quer transar e não quer ser reconhecido como um gênio. Afinal, que diabos ele deseja? É isso que, ao final da produção, todos já têm ideia e a última cena confirma de forma genial.
Trata-se de um filme inteligente, com uma produção impecável, bela fotografia e apoiado em ótimas atuações do jovem elenco. As cenas são conduzidas de forma diversificada e bastante fora do usual. Não peca por favorecer demais uma característica só (como A Origem, um filme esperto demais para seu próprio bem). Enfim, uma produção moderna em todo o sentido da palavra e digna do Oscar de melhor filme de 2010, o que, se depender da reação dos críticos, tem grandes chances de acontecer.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Príncipe da Pérsia (2010) - ou da chatice?
Sexta-feira, fim de tarde, nada melhor do que pegar um cineminha, certo? Bom, errado se você cair na besteira de querer assistir Príncipé da Pérsia, novo filme de aventuras de Jerry Bruckheimer. Não que eu esperasse assistir uma obra de arte ou algo assim, as críticas e o próprio staff do filme, baseado em um popular jogo de video game, já haviam me desiludido. Não esperava sequer uma aventura emocionante e cheia de reviravoltas, como o Piratas do Caribe, também de Bruckheimer. Esperava apenas um filme mais ou menos, com algumas boas cenas de ação e que me distraísse um pouco. Mesmo esperando isso, saí profundamente decepcionado.
Em primeiro lugar, parabéns para Jake Gylenhaal por ter conseguido alguns músculos, mas sua interpretação é quase tão contundente quanto as de Reinaldo Gianecchini nas novelas das 8. Dito isso, a princesa por quem ele se apaixona é uma chata de galocha e acho que o príncipe só a perdoa porque ela é bonita (e também nem tanto). O filme é repleto de frases clichês, e dou 10 reais pra quem não descobriu que o cara mau da história era o tio careca e metrossexual deles (um Ben Kingsley cínico e de cara feia). Acho que o único personagem válido da história é o do fora-da-lei dono de avestruzes corredores, muito bem interpretado por Alfred Molina. Molina é para mim um grande ator que não foi reconhecido pela Academia. Ele desempenha seus papéis com uma naturalidade incrível, por mais absurdos que sejam. Este não é diferente. Ele serve também como um contraponto para toda a jornada dos outros personagens, já que se importa apenas com seu dinheiro e seus avestruzes e mostra como todo o roteiro da produção é ridículo.
Um ponto que esperei com ansiedade foi a fotografia do filme, que acabou se mantendo em um nível muito parecido com a de 300, embora fosse ligeiramente inferior. Os efeitos especiais, tão maravilhosamente desenvolvidos na série Piratas do Caribe, aqui parecem um tanto forçados e fora do lugar. Na realidade, me deu até vontade de rir quando Dastan (o dito príncipe) virou um balde de água fervente em cima de uns pobres soldados. Me fez lembrar de um momento parecido no Corcunda de Notre-Dame da Disney.
Enfim, esse é mais um filme da safra de grandes e caras produções de Hollywood, com aposta em efeitos especiais. Dessa vez, no entanto, o resultado não compensou. Até quando vão insistir em continuar fazendo filmes baseados em jogos de video game? Será que não perceberam que a fórmula não dá certo?
Em primeiro lugar, parabéns para Jake Gylenhaal por ter conseguido alguns músculos, mas sua interpretação é quase tão contundente quanto as de Reinaldo Gianecchini nas novelas das 8. Dito isso, a princesa por quem ele se apaixona é uma chata de galocha e acho que o príncipe só a perdoa porque ela é bonita (e também nem tanto). O filme é repleto de frases clichês, e dou 10 reais pra quem não descobriu que o cara mau da história era o tio careca e metrossexual deles (um Ben Kingsley cínico e de cara feia). Acho que o único personagem válido da história é o do fora-da-lei dono de avestruzes corredores, muito bem interpretado por Alfred Molina. Molina é para mim um grande ator que não foi reconhecido pela Academia. Ele desempenha seus papéis com uma naturalidade incrível, por mais absurdos que sejam. Este não é diferente. Ele serve também como um contraponto para toda a jornada dos outros personagens, já que se importa apenas com seu dinheiro e seus avestruzes e mostra como todo o roteiro da produção é ridículo.
Um ponto que esperei com ansiedade foi a fotografia do filme, que acabou se mantendo em um nível muito parecido com a de 300, embora fosse ligeiramente inferior. Os efeitos especiais, tão maravilhosamente desenvolvidos na série Piratas do Caribe, aqui parecem um tanto forçados e fora do lugar. Na realidade, me deu até vontade de rir quando Dastan (o dito príncipe) virou um balde de água fervente em cima de uns pobres soldados. Me fez lembrar de um momento parecido no Corcunda de Notre-Dame da Disney.
Enfim, esse é mais um filme da safra de grandes e caras produções de Hollywood, com aposta em efeitos especiais. Dessa vez, no entanto, o resultado não compensou. Até quando vão insistir em continuar fazendo filmes baseados em jogos de video game? Será que não perceberam que a fórmula não dá certo?
quarta-feira, 10 de março de 2010
O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001)
O Fabuloso Destino de Amélie Poulain é um filme realmente fabuloso. Contado através de uma atmosfera colorida e cartunística, a obra é uma pérola do cinema francês. Amélie é uma menina criada fora do contato de outras crianças, pois seu pai acredita que ela tem um problema cardíaco. O mal entendido, no entanto, é que seu coração bate mais forte quando o pai a examina, por ser um dos poucos momentos em que ele se aproxima dela. Assim, ela cresce para ser uma mulher tímida, retraída e extremamente doce. Seu mundo é abalado quando ela encontra uma caixa em seu banheiro, fazendo com que ela passe a interferir nas vidas de todos que conhece, mudando-as para melhor. No processo, ela conhece um homem, pelo qual se apaixona e com quem vive uma história de amor no mínimo bizarra.
A beleza do filme reside no cenário e na fotografia, além de algumas cenas divertidíssimas, como a do passeio do anão de jardim por diversos países. Audrey Tautou encanta por sua simplicidade na interpretação de Amélie. O filme também trata superficialmente da questão do destino e do amor perfeito, sendo que Amélie e seu estranho pretendente parecem ser realmente feitos um para o outro. Também não é deixada de lado a questão do sexo, mas ele não tem uma posição central na obra, já que Amélie já havia experimentado e se decepcionado e o relacionamento intensamente sexual de sua amiga com seu perturbado namorado também não parece dar certo.
Repleto de momentos maravilhosos e muito humor, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain deixa a impressão final de ser uma fábula, tanto por sua estrutura quanto por seu final feliz e um tanto moralizante.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Educação (2009)
Esse é, talvez, um dos indicados mais inesperados ao Oscar. O filme conta a história de Jenny (Carey Mulligan), uma menina que está entediada com a alta quantidade de estudos de que tem que dar conta para entrar em Oxford e satisfazer seu pai (Alfred Molina). E é aí que entra David (Peter Saarsgard), um polido e charmoso vigarista de 35 anos, que não deixa de mostrar seu lado sujo em alguns momentos. David conquista os pais da moça, apesar de serem rigorosos, e a pede em casamento, fazendo com que Jenny largue a escola e deixe de fazer a prova para Oxford. Fascinada com o novo mundo de glamour que lhe é apresentado, a garota acaba tendo uma surpresa desagradável. A história do filme é muito interessante e as atuações acontecem na medida certa. Destaque para a atuação da jovem Carey Mulligan, que surpreende no papel da confusa e encantadora Jenny.
Baseada na história verídica da jornalista Lynn Barber, a produção é muito boa e merece estar entre os melhores do ano. Preste atenção no rumo que a história toma e veja se não há uma mensagem muito implícita: Nem sempre conseguimos o que queremos, mas, se nos esforçarmos, alcançamos aquilo que podemos.
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